segunda-feira, 7 de junho de 2010

Rewind

Estava lendo o blog do meu amigo Upiara (http://upiarab.blogspot.com/) e vi esse texto que ele fez... eu AMEI...


Rewind
- Era em você que eu tava interessado.

- O quê?
- Aquela noite, era pra você que eu tava olhando.

Cíntia suspeitou na primeira frase e entendeu tudo na segunda, mas continuou fazendo cara de desentendida, aproveitando o som alto da festa. Sabia bem do que Carlos estava falando. Era sobre aquela mesma noite, dez anos atrás, quando foi com Joana para a balada das quintas-feiras e os três se conheceram. A amiga se encantou por ele, ficaram, começaram a namorar, foram morar juntos, casaram e passaram comemorar todo ano a data da primeira noite com uma festa que mimetizava em tudo aquela em que se conheceram - com direito aos mesmos três djs e convites para as pessoas que eles conheciam e estavam lá.

- Você sumiu e eu conheci a Joana...
- Não tô entendendo.

Dez anos depois, que tipo de revelação era aquela? Ela nunca ouviu falar que Carlos fosse mulherengo ou que o casamento da amiga estivesse passando por alguma dificuldade. Mesmo que fosse verdade, aquilo não fazia sentido algum tanto tempo depois.

- Senti vontade de te falar...
- Carlos, você tá maluco?
- Não sei...

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- Onde você tava, Cíntia?
- Fui ao banheiro, depois dei uma procurada na Joana. Por onde ela anda?
- Não hoje, naquele noite...
- Mas que insistência! Enlouqueceu, tua mulher taí.
- Foi só uma pergunta.

Nem ela lembrava o que a teria feito sumir naquela festa. Não assim, de imediato, pelo menos. Olhou em volta. O lugar não era muito diferente hoje em dia, mas tinha virado um restaurante há uns cinco anos - o que tornou mais cara a brincadeira por conta da necessidade de alugá-lo por uma noite. Naquele dia especial, mesas e cadeiras davam lugar a Smiths, Franz Ferdinand e Strokes.

Tentou lembrar do suposto sumiço de dez anos antes. Se não estava na pista, tinha subido as escadas, que davam para os banheiros e em seguida para o bar que ficava na entrada. A pista era uma espécie de porão. “Porão de luxo”, como diziam os freqüentadores. Se ela não estava na lá, estava no banheiro ou no bar, que duvida. Entretida, provavelmente.

- Eu tava onde a Joana deve estar agora. No bar, conversando com alguém, ora - disse, sorrindo.
- A Joana tava no bar. Conheci ela lá, procurando por ti.
- Ah... olha, eu vou pegar uma cerveja...

Carlos ainda tentou segurar o braço de Cíntia. Não num gesto brusco, mas com um toque delicado. Talvez por isso mal sucedido. Cíntia subiu as escadas ainda atordoada com a insistência do marido da amiga. Afinal, que brincadeira era aquela?

- Uma Heineken – disse, estendendo a mão que segurava a ficha, um detalhe importante na reconstrução do cenário da festa, segundo Joana.

Encostou-se no balcão e ficou olhando os convidados da festa, completamente entretidos naquela simulação de uma noite que aconteceu dez anos antes. Pela primeira vez desde então, passou pela cabeça dela o quanto era doentia aquela situação.

Um casal que não deixava uma noite especial virar passado. Uma lembrança que em vez de perder, ganhava detalhes e nuances ano após ano. A cada festa Joana recordava um detalhe perdido e dava um jeito de incorporá-lo. Tal pessoa que ela lembrava ter vindo de camiseta amarela e era logo contatada para tentar vir com figurino parecido. Uma menina que ninguém conhecia e tinha a Mafalda tatuada nas costas – substituída por alguém contratado para fazer o papel. Priscilla e Camila, que não se falavam direito há anos, praticamente coagidas a repetirem um beijo que não significara nada para as duas.

E nesse ano, a nuance, o detalhe novo, ironicamente, era Cíntia. A súbita lembrança do interesse de Carlos. De repente, chegou a imaginar Joana tramando tudo. Carlos fala brincando que se interessou primeiro por Cíntia e ela decide reproduzir aquilo na festa, para torná-la ainda mais próxima da original. Explicaria até esse sumiço providencial de Joana.

Toma mais um gole, vê a garrafa quase no fim e sente raiva por se sentir parte de um circo sem sentido. Quase tanto quanto eram aquelas noites de quinta-feira. Com a diferença de que naquelas não havia um roteiro a cumprir. Ela era dona da própria noite.

- Cíntia...
- Carlos, ou tu me leva embora daqui agora ou nunca mais fala comigo.

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- Oi, Jura! A festa tá boa esse ano?
- O pessoal tá empolgado lá dentro, mas eu não tô entendendo nada.
- Como assim?
- O Carlos e a Cíntia saíram correndo. E meia-hora antes, a Joana foi embora com o Calvin…

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